A volta dos que não foram



 

Alguém já disse uma vez: “só devemos acessar o passado se formos construir a partir dele…” Mas um pouco de nostalgia não faz mal a ninguém.

Estava outro dia pensando na velocidade dos acontecimentos e nas transformações do mundo. Como o tempo está passando rápido (é só impressão?) e como algumas coisas que eram parte das nossas vidas ficaram pelo caminho e nem nos demos conta.

Pois bem, mais do que falar de propaganda eu queria falar da vida e de pessoas: Eu nasci para a propaganda dentro de um estúdio de “Arte final”.

Lembro como se fosse ontem, Fernando Carvalho, Chefe de Estúdio (sim existia essa função por aqui) da Mark Propaganda anotando a data: “16/04/1986”, início do meu estágio escrito com uma lapiseira Pentel, na parede, do lado de uma grande prancheta coberta com um plástico verde claro, luminária de ferro verde musgo, com alguns pontos de ferrugem e forrada com uma folha branca de papel cartão, tamanho A2.

Na minha frente, em outras três pranchetas de igual tamanho, sentavam Horestes, Cardozin (Irmão do Carfil) e o próprio Fernandão, merecidamente considerado o melhor Arte finalista do mercado, junto com a Sueli da MPM (sim também existia uma MPM). Arte final que também era chamada de “Past up”.

Para quem não sabe as “artes finais” ou “past ups” consistiam em colar com cola benzina, composições de textos, “bromuros de cromos”, copias em papel fotográfico de “kodalites” de títulos feitos em “Letra Set”, num papel cartão coberto com papel vegetal ou manteiga. Sempre obedecendo a um layout ilustrado em tinta “guache” ou “manchas de ecoline”.

Por esse motivo, também brincávamos nos auto-intitulando: “Os cheira cola”, eu mesmo me “lombrei” varias vezes montando folhas e folhas para past ups, era isso que fazia um estagiário na arte final. Era trabalhoso, insalubre, mas garanto que era mais divertido e visceral.

Aí vieram os computadores. E o mundo como conhecíamos virou de cabeça para baixo quase que da noite para o dia. E não estou exagerando, tudo isso ainda acontecia há menos de quinze anos atrás.

Não nos damos conta que alguns excelentes profissionais sumiram, ou perderam relevância atropelados pelos novos tempos.

Laboratoristas (também tínhamos isso) como Dedé e Barbosa foram pra onde?

E o mais triste, Ilustradores excepcionais como Carlos Brasil e Rui Costa literalmente morreram. E quando eu falo “excepcionais” não estou sendo gentil. Da mesma forma como não estou sendo dramático quando digo que “morreram” vitimados pelos novos tempos. Foi isso que aconteceu.

Poderia escrever “laudas” e “laudas” sobre essas lembranças e falar de um monte de gente importante para a propaganda cearense chegar aonde chegou. Não me perguntem o que eu pretendo com tudo isso. Eu realmente não sei.

Mas todas essas pessoas fazem parte da minha memória afetiva na propaganda e esse post, no mínimo, pretende fazer uma pequena homenagem a todos. Aos que se reinventaram e seguiram em frente, e aos que se foram deixando saudades.

Sim, tenho saudades do tempo em que a propaganda era feita com as mãos.

 

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  1. Izabel Cavalcanti disse:

    Andrey..A.M.E.I. seu texto saudosista e confesso que também sinto muitas saudades. Também trabalhei e conheci todo esse pessoal que você fala, pois na qualidade de “Atendimento” vivia no studio cobrando as artes para revisão e aprovação final do cliente. Quantas horas extras noites a dentro…Gostaria de lembrar de outros profissionais que viveram este tempo, como os midias Silvia Ramos, seu sócio Claudio Souto e Simone Lima com Grace Romeiro…e tantos outros. Tempos que não voltam e que com certeza dão saudades. Mas quanto a sua reflexão “só devemos acessar o passado se formos construir a partir dele… penso que um pouco de nostalgia não faz mal a ninguém…” penso eu que este tempo serviu de amadurecimento pra todos nós. Não consigo enxergar como vai ser o amadurecimento dessa moçada que está surgindo hoje no mercado, mas com certeza novas mudanças aparecerão e eles também sentirão saudades do FACEBOOK, etc e tal..rsrs Beijo grande pra você e toda turma deste tempo. Poderíamos marcar um encontro com todos que ainda estão por aqui. O que vc acha?

    • Andrey Ohama disse:

      Tantas lembranças né? … Acharia ótimo reencontrar todos, apesar de que muitos já não estão entre nós. Nicodemos, Luis Carlos Castro, Giannini, Naves Ximenes, Fernando Portela… Beijo pra ti e pra todos!

  2. adriana saboya disse:

    andrey, textos como esse só saem da cachola quando se tem muito amor pelo que faz. eu lembrei do manel. kd ele?
    bjo bem grande.

    • andrey ohama disse:

      Dri Dri… realmente não tenho outra opção senão essa que eu escolhi. Quanto ao Manelão? Cara não sei, só sei que tá vivo! rsrsrsrsrsrsr fazendo alguma marmota em algum lugar… bjão!